Capítulo 5 - Eu queria ser a prova de balas!
RENESME POV
Após pronunciar aquelas três palavras, Jake subitamente paralisou. Eu fiquei até mesmo preocupada que ele tivesse parado de respirar. De modo automático, ele foi deslizando pela parede em que buscou apoio, talvez para não cair vergonhosamente desmaiado, e sentou-se ao chão, agora com o semblante pálido. Ele me pareceu muito engraçado naquele momento, mas eu não estava em condições de rir dele. Eu só queria mesmo que o enjôo que eu sentia passasse e eu voltasse a me sentir melhor, embora eu soubesse que nunca mais me sentiria bem de novo, não depois de ter meu coração despedaço por ele.
Já que Jacob parecia estar em modo catatônico, eu peguei uma toalha de rosto que tinha ali, a molhei e passei em minha nuca, amenizando o cala frio que eu sentia. Enxaguei minha boca com um enxaguante bucal de menta e olhei para Jake novamente. Ele fitava o chão do banheiro com tanta atenção, que eu comecei a me preocupar. Eu tinha planejado outra maneira de contar isso para ele, porem, devido ao momento, me pareceu uma boa hora para dividir essa descoberta.
Sem saber como agir, acabei sentando no chão novamente, esperando que ele dissesse algo sobre a minha revelação. Alguns bons minutos se passaram, e como não podíamos ficar o dia todo ali, eu resolvi quebrar o silêncio.
- Jake, você está bem? – perguntei me forçando a olhar em sua direção. Ele pareceu despertar ao som da minha voz, e me olhou com o semblante preocupado.
- Renesme você está melhor? Você precisa que eu faça alguma coisa? Quer que eu pegue algo pra você? – ele disparou eufórico, me fazendo rir levemente.
- Já estou melhor, não preciso de nada. – falei desviando meu olhar do dele. O que eu mais queria naquele momento, ele não poderia mais me dar.
Eu podia sentir seu olhar em mim e percebi que ele se aproximava de onde eu estava sentada. Minha única reação foi me afastar dele, não suportando a idéia de sentir seu toque em mim novamente, não depois dele ter tocado nela.
- Quando você soube? – perguntou suspirando e parecendo realmente interessado. Eu quis responder de modo atravessado e sarcástico, mas eu sabia que não nos levaria a nada agir dessa forma.
- Semana passada. – falei simplesmente, o deixando com suas próprias conclusões.
- Como... Eu pensei que... Você não estava... – ele parecia sem jeito de perguntar. Eu também me fiz essas mesmas perguntas.
- Minha médica me disse que o efeito do contraceptivo pode ter sido anulado quando tomei aqueles remédios para minha bronquite. Ela disse que é raro acontecer, mas não impossível. Eu juro que não me esqueci de tomar um dia se quer as pílulas, Jake. – falei na defensiva, não querendo que ele pensasse coisas erradas de mim, afinal se ele me traiu, pode muito bem pensar que eu planejei engravidar só para segurá-lo.
- Eu acredito em você, Love. Nunca pensaria ao contrário. – ele disse de modo seguro, e eu fechei meus olhos, sentida por ouvi-lo me chamar dessa forma.
- Não me chama assim. – pedi olhando para minhas mãos. Doía demais saber que nunca mais nos trataríamos dessa maneira. Eu o ouvi respirar fundo e me assustei quando ele se ajoelhou na minha frente.
- Renesme, por favor, olha pra mim. Me dói demais saber que você não consegui nem me encarar. – pediu de modo carinhoso e eu, por ser uma idiota apaixonada, o fiz. Seu semblante estava triste e seus olhos marejados. – Me perdoa por tudo o que eu disse. Eu errei, fui idiota, insensível e me odeio por isso. Mas de uma coisa eu não sou culpado. Eu não traí você, Renesme. Você precisa acreditar em mim. – disse tentando segurar minhas mãos. Eu soltei minhas mãos das dele, sentindo novamente o nó na garganta.
Eu queria tanto ser forte e não dar esse gostinho para ele, mas não consegui me agüentar, as lágrimas vieram sem minha permissão, talvez por meus hormônios estarem enlouquecidos por causa da gravidez.
- Eu a vi do seu lado, Jake. Deitada na mesma cama que nós nos amamos pela primeira vez. – eu pausei enxugando minhas lágrimas - Faz ideia de como me senti? – eu o encarei, vendo lágrimas silenciosas caírem de seu rosto - Pois então eu te falo... Destruída, despedaça, como se tivessem tirado um pedaço de mim.
- Eu sei que é difícil acreditar, mas de alguma maneira eu sei que não fiz isso. – disse se levantando e passando a mão na cabeça nervosamente. – Você precisa acreditar em mim. Por favor, Renesme. - ele também não acreditou em mim deduzindo todas aquelas idiotices. Eu não consigo não acreditar em algo que vi.
- Eu não quero mais falar sobre isso, Jacob. Eu estou cansada, com fome e preocupada como irei contar ao papai sobre isso. – falei cortando o assunto. Não adiantava ficar mais ali nos desgastando.
- Você não pode fugir de mim! – disse se apoiando na pia e ficando de costas para mim. Eu me levantei, irritada por ele querer forçar uma situação entre nós dois.
- Quem fugiu primeiro aqui, foi você Jacob! Você que saiu que nem um louco da minha casa sem querer ouvir minhas explicações. Por que agora eu deveria te escutar? – falei me alterando.
- Por que eu não fiz por mal. Esse é o meu jeito de lidar com as coisas. – ele retrucou se virando para me encarar.
- Pois o meu será esse também. – devolvi bufando e saindo daquele banheiro o mais rápido possível.
- Renesme, por favor, volta aqui. – pediu saindo atrás de mim.
Eu parei, mas não porque ele pediu e sim pela imagem a minha frente. Meus olhos estacaram na cama bagunçada e na peça de lingerie de quinta que estava ali. Eu tive vontade de quebrar tudo naquele quarto, sentindo a raiva me dominar. A lembrança de nossa primeira noite agora estava manchada com a imagem da traição dele. Jacob percebeu para onde eu olhava, e como um risco, pegou a lingerie e a jogou no lixo.
- Você deveria guardar isso. Vai que ela precise da próxima vez. – grunhi sarcástica.
- Para com isso, Love. Ela fez de propósito. – Jake disse tentando se aproximar de mim mais uma vez.
- Eu quero ir embora. – falei em encolhendo e vendo dor em seus olhos. Por que ele parece estar sofrendo tanto como eu? Por eu ter descoberto antes dele me dar um pé na bunda? Por remorso?
- Eu vou com você. – ele disse pegando sua mochila no guarda roupa e começou a colocar algumas peças de roupa dentro.
- Não quero que você vá comigo. – retorqui brava. Ele fechou a mochila já pronta e me olhou.
- Isso não está em discussão. Eu também sou responsável por meu filho, Renesme. Esse filho é nosso e nós precisamos ficar juntos agora.
Então ele só estava fazendo isso pelo bebe...
- Você quem sabe. Espero que esteja preparado para enfrentar o chefe Swan. – falei saindo dali e o vendo engolir seco. Eu sei que é maldade, mas ele precisava se lembrar de que papai, mesmo tendo se aposentado esse ano, ainda tem uma arma em casa.
Ao chegar à sala, vi Bella depositando uma bandeja de sanduíches na mesa, e sentindo meu estomago roncar, fui logo pegar um. David estava conversando com Edward, e minha irmã, que agora estava na cozinha, me lançou um olhar do tipo “Nós vamos conversar agora”. Jacob deixou sua mochila perto da porta de entrada e foi até a cozinha, tirando das mãos da minha irmã uma jarra de suco e voltou para a sala. Ele pegou um copo e me serviu, sentando-se ao meu lado e me olhou comer. Bella deu um sorriso em nossa direção e eu quase sorri também, quase, por vê-lo cuidando de mim. Não posso negar. Nessa parte Jake nunca deixou a desejar.
Depois de comer quase quatro sanduíches, e arrancar risadas de todos por estar quase páreo a Emmett na hora de comer, Bella e eu fomos conversar. Nossa conversa foi tranquila, e minha irmã agiu como eu pensei que agiria. Como minha melhor amiga. Além de ela ter cuidado de mim quando mamãe faleceu, e pego no meu pé como uma mãe faria, em primeiro lugar ela era minha irmã mais velha e também a pessoa que eu sempre soube que poderia contar.
Eu contei tudo a ela. Como me senti quando Jake foi embora sem me dar satisfações, de como descobri que estava grávida, como David me apoiou e até mesmo me acompanhou à médica, e de como me sentia agora. Bella queria ir para Forks comigo e Jake, para nos ajudar com papai, porém, eu disse a ela que precisava fazer isso sozinha. Era minha responsabilidade, não dela. Fora que Jacob estaria do meu lado, e por mais que eu teime em negar, ele me transmite segurança e eu sei que ele agüentará as pontas com meu pai.
Nós saímos de LA depois do almoço e chegamos a Forks no final da tarde, quando o sol já estava se escondendo. Eu agradeci a David por tudo, e pedi desculpas ao meu amigo por tê-lo posto nessa situação. Ele disse que se sentia tranqüilo quanto ao fato de ter assumido que é gay e que continuaria me apoiando. Eu dei um abraço apertado nele, respirei fundo e sai do carro, dando de cara com um Jacob de cara amarrada. Ele estava com essa cara desde que saímos de LA, só porque eu preferi voltar com David, e não com ele.
Resolvi não dar atenção a ele e me preparei para enfrentar papai, que possivelmente estaria muito bravo por eu ter saído de casa sem avisá-lo. Segui pelo caminho de pedras até a porta da entrada, com Jake em meu encalço. Billy vinha logo atrás de nós. Ah sim... Nós fizemos uma parada na casa do Jake antes de virmos para cá, pois ele queria que todos soubessem de uma só vez. Eu concordei, pois sabia que já seria desgastante dessa única vez, imagine se tivesse que passar por isso novamente.
Billy estranhou nosso pedido, mas aceitou de bom grado, dizendo que precisava levar a vara de pescar que papai tinha deixado na casa dele semana passada. O pai de Jake só lançou um olhar estranho para o filho, sibilando algo como “Tomara que a arma de Charlie esteja descarregada hoje”. Talvez Billy já desconfiasse o que iríamos contar, porém, resolveu guardar para si.
Eu não estava com medo de enfrentar meu pai. Estava com a consciência tranqüila, pois sabia que essa gravidez tinha simplesmente acontecido. Não foi planejada, mas eu aceitei e era isso que importava.
Quando entrei em casa, avistei Sue sentada no sofá e papai estava em pé, com o telefone no ouvido. Assim que ele percebeu minha presença ali, colocou o telefone no gancho e disparou:
- Você perdeu o juízo Renesme Swan?
Eu abaixei minha cabeça, envergonhada por tê-lo deixado preocupado e olhei para trás, vendo Jake apertar as mãos de maneira nervosa e Billy fechando a porta de casa.
- Desculpa, pai. – pedi dando um aceno para Sue, que se levantou e veio me dar um beijo.
- Desculpa? É só isso que você tem para me dizer? – papai questionou colocando as mãos na cintura – Billy? O que faz aqui?
- Eles pediram que eu viesse. Disseram que tem algo importante para contar. – Billy respondeu olhando para Jake e eu. Papai parou seu olhar em Jacob, e nesse momento eu me segurei para não rir, pois Jake estava branco feito papel, e eu podia jurar que ele estava suando frio.
JACOB POV
Não vou mentir. Eu estava me borrando de medo do chefe Swan. O olhar que ele me deu foi tão duro, que quase sai dali correndo e deixei Renesme para trás.
Que isso, Jake! Você é um homem ou um rato?
Nesse instante eu não tinha mais certeza. Deixa de ser bundão, Jacob! É, é isso. Eu não tenho por que me preocupar dessa forma. Charlie é um cara sensato, cabeça fresca e gente boa. Ele não faria nada contra minha pessoa. Faria?
Em se tratando do fato de ter que contar a ele que eu engravidei a filhinha dele, minha convicção estava indo por água abaixo.
Respira, Jake! Tudo vai dar certo. Você já é bem grandinho e pode encarar o pai da Renesme numa boa.
– Eu realmente espero que vocês tenham uma boa explicação. Você está por trás disso, Jacob? Sabia que Renesme ia para LA? – Charlie inquiriu me trazendo de volta a realidade – Se você foi conivente com isso...
– Pai, Jake não sabia que eu estava indo para LA, ok? – Renesme o interrompeu indo sentar-se no grande sofá da sala. Eu suspirei aliviado por não ter que contar a ele que eu era o grande motivo dela ter ido para lá e o deixado doido de preocupação, mas nem por isso ele deixou de me encarar com uma cara brava, talvez sentindo meu medo.
Por instinto de sobrevivência, eu vasculhei a sala com os olhos, vendo se sua arma não estava a vista. Aparentemente ela não estava ali e eu me perguntei onde ela estaria.
– Eu vou preparar alguns refrescos. – Sue disse indo para a cozinha, e no caminho parou para me dar um beijo.
– Pai... Senta aqui, por favor. Quero conversar com você. – Renesme pediu fazendo Charlie tirar seus olhos de mim por alguns segundos, e mesmo bufando, fez o que a filha pediu.
Eu senti um empurrão em minhas costas, e notei papai acenando para que eu me sentasse também. Eu sentei ao lado da Renesme, e o mais longe possível de Charlie. Papai sentou-se no outro sofá de dois lugares, me olhando com uma cara nada agradável.
- Então Renesme? O que te deu na cabeça de sair assim sem avisar? Você faz idéia de como fiquei preocupado? – Charlie reclamou, lançando um olhar reprovador a ela.
- Eu sei pai e peço desculpas de novo. Eu não devia ter feito isso, mas eu precisava ir para lá, e o senhor não ia me deixar ir sozinha. – Renesme disse com a voz triste, e eu me senti pior do que já estava, por saber que eu era o causador dessa tristeza.
- Com certeza eu não deixaria. O que tanto você tinha pra fazer lá que não podia ser resolvido por telefone? – Charlie perguntou revezando olhares entre eu e a filha.
- Eu precisava falar com o Jake, só que ele não estava me atendendo. – ela continuou explicando num fio de voz. Eu sou um completo idiota. Se eu não tivesse sido tão turrão e cabeça dura, as coisas poderiam ser diferentes.
- E por você não estava atendendo ela, Jacob? Posso saber? – Charlie inquiriu impaciente.
Você não vai gostar nem um pouco de saber sobre isso... – pensei cabisbaixo.
- Isso não vem ao caso agora, pai. Mas eu fui para lá porque precisava contar algo para ele, e também dizer que eu havia passado no teste. Só que agora nós viemos conversar sobre outra coisa com você e Billy. – Renesme disse e Charlie bufou por sua evasiva.
- Digam logo então. Quero saber o que deve ser tão importante pra você ter me deixado aqui de cabeça quente e preocupado o dia inteiro.
O momento era esse. Era agora que eu saberia se sairia daqui vivo ou não. Minha respiração acelerou e eu percebi que Renesme começou a ficar nervosa, pois balançava as pernas freneticamente. Eu me senti um palerma nessa hora, porque até então, eu não tinha aberto minha boca para nada. Eu não queria que Charlie pensasse que eu era um covarde. E a minha obrigação era dar apoio a minha garota.
Vamos lá, Jake! Coloca esse homem que tem dentro de você pra fora!
- Charlie, antes de qualquer coisa, eu quero que saiba que sempre respeitei muito a Renesme, e que isso aconteceu por motivo de força maior. – falei, orgulho por minha voz não ter falhado.
- Isso mesmo, pai. Aconteceu sem querer e eu espero de verdade que você possa compreender. – Renesme disse respirando fundo e eu parei de respirar – Eu estou grávida, pai. – ela soltou finalmente, olhando para Charlie. Eu soltei o ar que estava segurando em um único folego, e olhei para o meu pai. Um silêncio sepulcral tomou conta da sala, tirando o barulho de algo caindo na cozinha.
Papai fez uma cara meio estranha, meio que sorrindo e fazendo uma careta, agora Charlie parecia bem diferente. Suas narinas, após escutar a bomba que Renesme lançara, dilataram-se em questão de segundos e ele começou a ofegar. Seus olhos, que estavam na filha, agora estavam cravados em mim e eu podia ver claramente suas veias do pescoço saltando. Um barulho de couro sendo apertado soou pela sala, e eu vi os dedos de Charlie sendo cravados no braço do sofá. Eu torci para que ele não estivesse imaginando que aquilo ali fosse o meu pescoço.
- Jacob... O que você acha de irmos até o porão para eu lhe mostrar a minha arma? – Charlie grunhiu ofegante e levantou-se de súbito, vindo ao meu encontro – Eu vou acabar com você moleque! – ele gritou se jogando em cima de mim e tentando agarrar meu pescoço, como eu suspeitava. No entanto, ele foi bloqueado temporariamente pela filha.
- Pai, para com isso! Você quer que meu filho nasça sem pai? – Renesme bradou pedindo ajuda a papai com os olhos.
- Charlie se acalma homem! Não adianta nada perder a cabeça assim. – meu pai pediu tentando soltar os braços de Charlie do meu pescoço.
- Seu filho é a prova de balas, Billy? – Charlie perguntou com um sorriso diabólico no rosto. – Por que se não for, eu sugiro que ele saia daqui agora!
Mesmo que eu quisesse fugir, não conseguiria. A cena seria hilária se o momento não fosse tão tenso, pois eu temia pela minha vida. Nós quatro estávamos tão embolados entre si, que era praticamente impossível sair dali. Charlie estava em cima de mim agarrado ao meu pescoço, e Renesme estava no meio de nós dois, tentando bloquear os braços do pai, mas devido sua baixa estatura, não estava obtendo sucesso, e papai estava agarrado à cintura de Charlie, o puxando para longe de mim.
- Charlie Swan! Pare com isso agora! – quatro cabeças viraram instantaneamente em direção à voz, que soou tão brava, que me fez recordar quando era moleque e titia me repreendia, me puxando para dentro de casa pelas orelhas, por ter feito alguma travessura. – Você quer experimentar ficar um mês sem comer aquelas porcarias congeladas que esconde no freezer do porão? – ela inquiriu com as mãos na cintura, parecendo uma sargentona.
Charlie no mesmo instante soltou meu pescoço e começou a sair de cima de mim, olhando para Sue de modo contrariado, mas eu tinha certeza que ele não iria se atrever a desobedecê-la. Acho que Charlie morreria do coração se ficasse um mês sem comer aquelas porcarias que ele tanto adora.
- Vocês vão conversar civilizadamente ou eu vou ter que intervir de novo? – Sue perguntou agora mais calma, olhando diretamente para Charlie.
- Eu preciso respirar um pouco. – Charlie resmungou, saindo porta afora.
- Pai, espera... – Renesme pediu o seguindo, mas Sue a parou.
- O deixe respirar um pouco, querida. Depois vá conversar com ele. – Renesme assentiu suspirando e me deu um olhar triste – Agora me dê um abraço. Eu não acredito que vou ser avó! – minha tia disse a puxando para um abraço apertado e a felicitando. Eu me aproximei delas, passando a mão na garganta e querendo receber um abraço também, afinal de contas, eu quase morri instantes atrás.
- Eu também não mereço um abraço? – perguntei como quem não quer nada, vendo minha tia soltar Renesme de seus braços – Ai tia! Por que me bateu? – reclamei passando a mão em minha cabeça. Minha tia tem a mão muito pesada.
- Seu pai e eu não te ensinamos que quando fosse ficar com uma garota você tinha que vestir a capa no bule, Jacob! – ela esbravejou, me deixando completamente constrangido. Eu podia sentir meu rosto pegar fogo e olhei Renesme de canto de olho, a vendo morder os lábios para não rir.
- Tia! Isso é coisa que se fale? – reclamei pedindo ajuda para meu pai. Minha tia tem a língua muito solta quando quer.
- E qual o problema? Vocês não fizeram um filho? Pois então sabem muito bem do que estou falando. – minha tia disse revirando os olhos.
- Ela tem toda razão, Jacob. Eu até comprei as... As... Capinhas pra você. Até te ensinei como usá-la com a banana, filho – papai soltou, me fazendo gemer de vergonha.
Meu Deus isso virou um pesadelo! A parte em que Charlie estava me esganando me pareceu mil vezes melhor do que isso. Já que meu pai também estava disposto a me envergonhar, resolvi pedir ajuda para Renesme, lançando a ela um olhar implorativo.
- Como eu disse ao papai, Sue, essa gravidez aconteceu por acaso. Lembra quando eu... – Renesme começou a contar, conduzindo Sue e papai para sentarem no sofá novamente e eu suspirei aliviado, contente por ainda estar vivo. Ainda...
O pior já tinha passado, porém, se precaver nunca é demais. Com certeza eu iria me certificar em manter os olhos em Charlie, e não deixar que ele chegue perto daquele porão tão cedo.
CHARLIE POV
– Eu estou grávida, pai.
A frase que minha filha tinha acabado de pronunciar não saia da minha cabeça. Grávida... Grávida... Minha filhinha estava grávida. Eu suspirei, me controlando para não voltar até aquela sala e cometer uma loucura.
Sentado na varanda de casa, olhei para a porta de entrada, e desejei naquele instante, que algo além das minhas forças fizesse o tempo voltar. Desejei que minha filha caçula entrasse por aquela porta, vestindo seu uniforme do primário, com suas maria chiquinhas enfeitadas com laços coloridos e um sorriso doce no rosto.
Mas nem tudo que desejamos, podemos ter, e a realidade agora era outra. Ela entrou por aquela porta, dizendo que está esperando uma criança. Um bebe... Por Deus! Ela é ainda uma criança. Como pode se quer estar preparada para gerar e cuidar de outra?
Renesme sempre foi tão frágil para certas coisas. Sempre a tratamos com mais cuidados e atenção por esse motivo. Eu devia ter acompanhado mais esse namoro entre eles e não dado tanta liberdade, mas também, como eu ia proibi-la de manter relações com aquele... Moleque!
Eu já tive a idade deles, sei bem como é essa fase. Se eu a proibisse de namorar, talvez ela fizesse escondido, e ai poderia ser bem pior. Nunca fui contra esse namoro, afinal vi Jacob crescer com minhas meninas, mas ele bem que podia ter mantido seu brinquedo bem longe da minha filha. Pelo menos até quando ela completasse trinta anos!
Eu ri da minha estupidez. Quem sou eu para julgá-los? Eu mesmo não consegui controlar meus hormônios, e nove meses depois Bella estava nascendo, e nem por isso minha vida acabou. Muito pelo contrário, foi ai que minha linda família começou. Foi difícil, não posso dizer que tudo foi um mar de rosas, mas Renne e eu conseguimos superar todos os obstáculos e criamos nossas filhas. Mas será que com Renesme e Jacob será assim também? Ela está no auge de sua vida, indo para a Universidade e com tantas coisas para se viver.
Eu sei que não estive tão presente na vida de minhas filhas depois que Renne morreu. Eu enfiei a cara no trabalho para tentar superar a dor da perda, e também por querer dar o melhor para elas. Sei também que nunca fui um pai tão aberto para conversar sobre sexo e assuntos femininos, e agora eu sentia que tinha falhado com minha filha caçula.
Nenhum manual te ensina a ser pai e muito menos te prepara para quando seu filho se machuca pela primeira vez, quando ele fica doente pela primeira vez ou quando seu primeiro dente cai. Quando ele faz a primeira travessura ou quando você é chamado no colégio para assinar o boletim por causa de notas vermelhas. E certamente não te prepara para quando aquela garotinha de maria chiquinhas lhe conta que está grávida.
Eu me considero um pai moderno, que está por dentro das coisas que acontecem com os jovens, afinal de contas, meu trabalho exige isso. Mas saber que sua filha cresceu, que ela já é uma mulher e sexualmente ativa, é difícil para qualquer pai aceitar.
- Pai... – escutei Renesme me chamar e olhei em sua direção, lembrando de sua imagem quando pequena e correndo para os meus braços, enquanto brincávamos de esconde-esconde com Bella e Renne – Posso me sentar? – ela perguntou apontando para o lugar no balanço ao meu lado.
- Claro, filha. – eu parei o balanço com meus pés e esperei que ela se acomodasse, para então voltar a impulsionar com meus pés. Lembrei de quando minhas filhas eram pequenas e gostavam de sentar no balanço comigo, uma de cada lado dizendo: ”Balança mais forte, papai. Mais forte!”.
Eu olhei para minha princesinha sentada ao meu lado e seu semblante estava cansado e tristonho. Ela já estava com esse rostinho há dias. Porque eu não percebi que algo estava errado?
- Desculpe se te decepcionei, pai. – ela disse cabisbaixa e meu coração de pai se quebrou. Um pai nunca se decepciona com um filho, muito pelo contrário. Ele se decepciona consigo mesmo, pois muitas vezes se sente impotente por não poder fazer algo por eles. Por não conseguir protegê-los de tudo.
- Meu amor, você não me decepcionou. – falei beijando seus cabelos – Eu só... Não esperava por uma noticia dessas.
- Aconteceu, pai. Nem eu esperava por isso. Nós estávamos nos cuidando. – ela disse virando-se para me olhar – Lembra que eu tive que tomar aqueles medicamentos porque minha bronquite estava atacada? – eu assenti – Então... Minha médica disse que eles podem ter cortado o efeito do contraceptivo. Eu não sabia que algo assim pudesse acontecer, pai.
Wow! Eu também não fazia idéia de que algo assim pudesse acontecer. É Charlie você precisa se inteirar mais sobre o Universo feminino. E ainda se acha super moderno...
– Então espera... Isso quer dizer que eu não tenho mais um motivo para usar minha arma? – bufei descontente. Ia ser tão divertido levar Jacob para aquele porão.
– Para, pai. – Renesme pediu rindo, e eu ri também, contente por conseguir fazê-la rir – Ele está assustado até agora.
– É bom que esteja mesmo. Ele que não pense que vai sair daqui sem antes ter uma conversa séria comigo. – comuniquei, rindo internamente ao imaginá-lo suar frio em minha frente. Será que utilizar alguns métodos de tortura seria pegar muito pesado?
- Não é como se ele fosse sair correndo porta afora, pai até porque você sabe onde ele mora. – ela disse revirando os olhos.
- Bem, é bom saber que vocês estavam... – eu pigarreei desconfortável – Você sabe... Se cuidando. E mesmo se tivesse acontecido por irresponsabilidade, filha, eu fico contente por você ter me contado. Eu já vi tantos casos de meninas que fogem de casa por isso. – falei sinceramente e ela buscou meus braços, me dando um abraço apertado.
- Obrigado, papai. Obrigado por tudo que você já fez por mim. Eu te amo. – ela disse e eu senti o nó na garganta apertar. Foi ali que eu realizei que minha menininha caçula tinha crescido.
- Eu também te amo, minha princesa. – falei emocionado e silenciosamente agradeci a Deus por ter me agraciado com filhas tão boas. A embalando em meus braços, eu desejei que Ele a iluminasse e que ela fosse muito feliz. E que ela soubesse que eu nunca sairia do seu lado.
Nós ficamos ali abraçados, nos balançando levemente, até que eu resolvi tirar uma duvida que havia me deixado com uma pulga atrás da orelha.
- Filha, o que tanto você tinha para falar com o Jacob que te fez ir para LA sem me avisar? Era somente para contar a ele que está grávida? – eu estava achando que tinha algo mais nessa estória.
Final de semana passado, Jacob tinha ido embora sem se despedir, e foi a partir desse dia que Renesme começou a ficar estranha. Ela estava tão feliz por ter passado na Universidade, e de uma hora para hora, justamente depois que ele esteve aqui, ela ficou triste, andando pela casa de cabeça baixa e com os olhos vermelhos. Eu pensei que pudesse ter sido alguma briguinha boba entre eles, mas agora, algo que me diz que é bem mais do que isso.
Renesme, ao ouvir minha pergunta, ficou tensa em meus braços. Curioso, levantei seu rosto para que ela me olhasse, no entanto, ela desviou seus olhos para suas mãos, balançando as pernas nervosamente. Ali eu soube que realmente algo estava errado.
– Você acha que eu não reparei que algo esta acontecendo? Você nunca agiu assim, filha. Me conta o que há de errado? – pedi, acariciando seus cabelos. Ela não me respondeu de imediato, e quando o fez, sua voz saiu embargada.
- Aconteceram tantas coisas hoje, pai. Eu... Eu me sinto tão cansada e perdida. – ela disse agora me olhando com os olhos marejados – Eu estou tentando parecer forte, mas a verdade é que me sinto assustada. Eu não sei nada da vida, pai. Não sei como criar uma criança. – ela pausou, soluçando com um choro sofrido - Como eu faço pra essa dor ir embora, pai? – ela perguntou se jogando em meus braços e chorando copiosamente.
Eu estava certo. Minha filha estava sofrendo e não era somente por estar assustada com a gravidez. O que aquele moleque fez a ela? Ah mais eu e ele iremos ter uma conversa bem séria. Ele não vai escapar de mim, dessa vez.
Vendo-a tão desprotegida em meus braços eu fiz o que qualquer pai, que ama seus filhos, faria. A confortei, transmitindo todo meu amor e segurança.
- Não se preocupe com nada. – falei beijando seus cabelos -Tudo vai ficar bem minha princesa. Tudo vai ficar bem.



